quarta-feira, maio 10, 2017

O TEMPO DE CADA COISA



"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:" 
(Eclesiastes, 3)


Para cada coisa há um tempo: é o tempo de Deus.
Não é necessariamente o nosso tempo. Pode ser, pode não ser.
Transitamos pelos dias e anos através do tempo. Por isso, nos agendamos, fazemos planos, estabelecemos metas, criamos expectativas.
E isso é ótimo.
Se temos um alvo, a fecha tem um caminho.
Mas o caminho da flecha até o alvo tem suas surpresas, seus imprevistos.
E isso também é ótimo.
Se tudo fosse previsível, controlável e inflexível a vida seria um modorrento tédio e uma experiência despida de desafios e aprendizagem.
Temos de fazer a nossa parte, entregarmos para cada dia e cada ano o melhor que pudermos. Levantar da cama, seguir nossa agenda, executar nossos planos, cumprir nossas metas e lutar por nossos sonhos.
Contudo, ainda assim, isso não nos blinda dos imprevistos, não nos protege dos reveses, das surpresas que pipocam no caminho.
Às vezes, esses imprevistos e surpresas são obstáculos no caminho de nosso alvo.
Podem causar atrasos, adiamentos ou ser, também, desvios para outras sendas.
Simplesmente faz parte. A vida não é uma linha reta do ponto A para o ponto B. É uma teia de eventos interdependentes que se retroalimentam por vezes à revelia de nossa vontade e capacidade de previsão e controle.
Portanto, se nem tudo está saindo como você gostaria, como você previu, relaxe e tente perceber o que a vida está te ensinando e te oferecendo.
Não há acaso. Você não está passando por isso sem um motivo.
A dificuldade, o atraso ou o desvio de teus projetos e sonhos representam apenas um realinhamento e reconciliação entre o teu tempo e o tempo divino.

Confia, ajusta o que for necessário e segue firme.

domingo, janeiro 03, 2016

ESPIRITUALIDADE E PROMESSAS DE COMEÇO DE ANO


                                      “Minha religião é a bondade.”
                                      (Dalai Lama)



A passagem entre anos cria um clima psicoemocional propício para planejarmos mudanças positivas na vida. É a época dos planos, de sonhar e assumir compromissos sobre mudanças necessárias.
Dentre as metas a atingir, geralmente, põe-se trabalhar a espiritualidade. Aqui a palavra espiritualidade tem um significado diferente do comumente utilizado no Espiritismo, que se reporta aos Espíritos. A espiritualidade de que trato é no sentido lato. Ou seja, tudo aquilo que diz respeito às sutilezas do espírito humano. A palavra não se confunde com religião, que se refere a crenças organizadas em forma de doutrina, geralmente balizadas por dogmas e comandadas por hierarquias sacerdotais.
Espiritualidade são as brisas que aliviam e elevam o espírito humano em face da aridez dos desafios da vida terrestre. Pode revelar-se na música que toca profundo, no declamar de um poema, no contemplar do mar, no abraço fraterno ou em práticas como oração, meditação e yoga. O que todas essas opções têm em comum? Elas desenvolvem aspectos sutis dos recônditos do espírito humano e, por isso, são manifestações de espiritualidade.
Portanto, a espiritualidade pode ser uma experiência diária, seja ela rápida e efêmera, como um abraço acolhedor ou uma prática disciplinada como a meditação e a yoga. Cada uma delas tem seus benefícios. Sem prejuízo de você continuar suas práticas – como a oração, por exemplo - sugiro quatro opções diferentes: caminhar, praticar yoga, meditar e fazer caridade.
Ultimamente, caminhar foi associado a atividades físicas. Isso é bom, mas não é tudo. Caminhar em circunstâncias certas e com o estado de espírito adequado pode ser muito mais do que uma atividade física, pode ser uma atividade espiritual. Não custa lembrar que a caminhada há tempos foi um ritual de purificação e tem um papel central na prática espiritual de peregrinos de todo mundo. Sugiro o livro Caminhar: uma filosofia de vida, de Frédéric Gros, para quem quiser se aprofundar no assunto.
Praticar yoga também é um belo exercício de espiritualidade. A yoga é uma prática milenar, que trabalha de uma só vez o corpo e nosso eu mais profundo. A palavra Yoga tem origem na raiz sânscrita yuj e significa comunhão, integração. Propõe-se a desenvolver a  unificação harmônica de si mesmo. Essa prática – que têm muitas escolas – está associada a melhoras na saúde, na qualidade de vida, na ressignificação de valores e na própria percepção do mundo. Para quem quiser entender melhor, sugiro que estude o código de ética de Patandjáli e o livro Autoperfeição com Hatha Yoga, do saudoso Professor Hermógenes, um excelente livro para começar.
Meditar, por sua vez, traz tantos benefícios que fica difícil enumerá-los. Trata-se de prática que pode ser realizada sem vinculação a qualquer religião, embora tenha sido desenvolvida com maestria pelo Budismo. Promove a paz interior, a mansuetude, o altruísmo, o senso de comunidade, a felicidade e estados alterados de consciência que são tão fortes que mudam até a configuração e funcionamento do cérebro, conforme já provaram várias pesquisas científicas. Sugiro, fortemente, o livro A revolução do altruísmo, do monge Matthieu Ricard, considerado por vários pesquisadores como o homem mais feliz do mundo. Foi o melhor livro que li em 2015. É um livro poderoso, que desconstrói vários mitos e com farta argumentação científica e filosófica comprova os benefícios da meditação e do altruísmo.
Por fim, se você realmente quer trabalhar sua espiritualidade sugiro que você faça o bem. É neste sentido a fala do Dalai Lama, que sua religião é o bem. Ou como se diz no Espiritismo: promova a caridade. Trata-se da forma mais elevada de espiritualidade. Embora todas as demais sejam importantes, é imprescindível que a espiritualidade não seja um tesouro guardado só para si. É na comunhão, na partilha que evoluímos como seres humanos e como Espíritos imortais. Um guia para essa prática você encontra no Evangelho Segundo o Espiritismo, de Alan Kardec.
É isso. Que você tenha disposição, perseverança e compromisso com o desenvolvimento de sua espiritualidade. Bom pra você, para o ano que começa e para o mundo.


domingo, novembro 09, 2014

A OMISSÃO DOS ESPÍRITAS - PARTE I




“Temei conservar-vos  indiferentes, quando puderdes ser úteis.”
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 17)



Penso que uma das maiores demonstrações de amor é ofertar uma crítica sadia, construtiva, com intenção de propor uma reflexão sobre o aperfeiçoamento de determinada atitude.
Essa é a minha intenção com este artigo: propor uma reflexão e estimular uma mudança de postura do movimento espírita.
Como se sabe, as eleições de 2014 entram para história do Brasil não apenas como as mais acirradas, mas, sobretudo, serão lembradas pela virulenta hostilidade, pela indigência ética, pelo debate superficial de temas de relevância nacional e pela explosão do preconceito e do fundamentalismo.
Este cenário deveria ter mobilizado a atenção e manifestação do movimento espírita.
Contudo, salvo pontuais exceções, o movimento espírita silenciou, optou pela omissão diante do contexto e dos fatos supracitados.
O Censo 2010 sobre as religiões seguidas pelos brasileiros realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que os espíritas já beiram os 4 milhões de brasileiros, isto sem contar os milhões de simpatizantes. Entre 2000 e 2010, os seguidores da doutrina espírita aumentaram 65%. Trata-se de aumento considerável. Comparativamente com outras crenças, os espíritas possuem as maiores proporções de pessoas com nível superior completo (31,5%) e taxa de alfabetização (98,6%), além das menores percentagens de indivíduos sem instrução (1,8%) e com ensino fundamental incompleto (15,0%).
Da pesquisa do IBGE, nota-se, claramente, que os espíritas somam um número relevante de eleitores, têm boa instrução educacional e são potencialmente formadores de opinião.
Para além de o Espiritismo nos ensinar uma fé racional e propor a reforma íntima como centro de suas atenções, historicamente os espíritas são tidos como moderados, conciliadores e tolerantes, até porque foram por longas décadas as principais vítimas de perseguição e discriminação religiosa.
Ou seja, os espíritas e o movimento espírita reúnem uma combinação de experiências, características e virtudes que podem agregar conteúdo e propostas ao debate político.
Não obstante isso, o tema política no movimento espírita segue – em pleno terceiro milênio - como um insustentável tabu e, nesta condição, impede debates e reflexões maduras sobre o assunto, que acaba invariavelmente apequenado, reduzido a posições inflexíveis e arquivado na prateleira dos assuntos proibidos.
Desejo, neste despretensioso artigo, praticar a heresia de enfrentar este tabu, certo de que nenhum confrade vai acusar-me de má-fé, de obsediado ou condenar-me ao umbral.
Preliminarmente, anoto a sequência de minhas considerações. Quero primeiro explicar porque Kardec evitou tratar mais a miúde de política. Depois esclarecer o que devemos evitar em política. Terceiro, explicitar qual minha visão sobre a importância de um posicionamento sóbrio e maduro dos espíritas e do movimento espírita sobre política. Por fim, encerrarei este artigo rascunhando um esboço superficial, imperfeito e incompleto de alguns temas sobre os quais deveríamos nos posicionar.
Iniciemos com a posição de Kardec.
Emmanuel, através de Chico Xavier, no seu livro A Caminho da Luz, chama atenção ao fato de que Kardec reencarna em 1804, poucos anos depois da queda da Bastilha e da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão e apenas dois meses antes de Napoleão sagrar-se imperador[1].
O mundo entrava em um período de profundas renovações políticas, filosóficas e jurídicas, mas também de guerras.
Quando Kardec compilou a codificação espírita a humanidade experimentava a onda de razão do Iluminismo, que dentre outras coisas separou o Estado da religião, até então instituição central na vida política das sociedades.
Considerando os abusos que a religião promovera na condução de assuntos políticos[2], o Estado laico revelou-se uma das grandes conquistas da evolução política.
Naquele contexto, era totalmente razoável Kardec querer distância da política.
Acertadamente, sua prioridade foi focar sua pesquisa no desvelar do mundo espiritual, suas leis e organizar suas descobertas de forma a fomentar uma espiritualidade racional e que tivesse por escopo a reforma íntima.
Contudo, a conduta de Kardec não deve ser interpretada como uma posição de refutação ou desvalorização à política. A percepção mais adequada é de que ele – com sua arguta inteligência – percebeu a sensibilidade daquele momento histórico marcado pela força do Iluminismo e, sobretudo, tinha por alvo prioritário a questão espiritual.
Não obstante isso, Allan Kardec não foi omisso.
O livro Obras Póstumas, no capítulo das “Aristocracias”, consigna um estudo sobre os problemas e desafios religiosos, econômicos, sociais, culturais e políticos da humanidade.
Kardec respeitando a proposta Iluminista e aditando-a com sua visão espiritualizada, apresenta sua previsão sobre o advento da futura aristocracia intelecto-moral, no qual vislumbra um novo modelo de política, conduzida por lideranças que detenham não apenas preparo intelectual, mas também sólidas virtudes éticas e morais, que pudessem conduzir a humanidade nos complexos desafios da transição planetária.
Portanto, a distância asséptica que o Espiritismo mantém atualmente da política parece-me um equívoco, que precisa ser amplamente debatido e revisto urgentemente.
Feito este esclarecimento histórico, impõe-se passar para o segundo ponto, que é esclarecer o que devemos evitar em política.
A atuação política que defendo não é a de um projeto de poder, como defendem e fazem outras religiões.
Portanto, não defendo que os espíritas fundem um partido político, nem se filiem a um (embora possam fazê-lo no exercício de sua cidadania) e tampouco que o movimento espírita lance candidatos oficiais para os cargos eletivos para falarem em nome do Espiritismo e do movimento espírita.
Em verdade, não deve o espírita se preocupar em ocupar cargos estratégicos no Estado – embora possa fazê-lo cônscio de suas responsabilidades - ou desrespeitar a configuração constitucional do Estado laico.
Sobre estes aspectos, o livro O Consolador, de Emmanuel, recebido pela psicografia de Chico Xavier nos traz importante anotação[3]:

“O espiritista sincero deve  compreender que a iluminação de uma consciência é como se fora a iluminação de um mundo, salientando-se que a tarefa do Evangelho, junto às almas encarnadas na Terra, é a mais importante de todas, visto constituir uma realização definitiva e real. A missão da doutrina é consolar e instrui, em Jesus, para que todos mobilizem as suas possibilidades divinas no caminho da vida. Trocá-la por um lugar no banquete dos Estados é inverter o valor dos ensinos, porque todas as organizações humanas são passageiras em face da necessidade de renovação de todas as fórmulas do homem na lei do progresso universal, depreendendo-se daí que a verdadeira construção da felicidade geral só será efetiva com bases legítimas no espírito da criatura.”

Também não defendo que o movimento espírita se posicione a favor deste ou aquele candidato, grupo político e que muito menos suba em palanques. A questão não deve ser tratada sob a ótica de ideologias políticas ou de política partidária.
Não, não é isso que defendo.
O que defendo é o debate, sob a ótica espírita, de temas centrais à humanidade e o pertinente posicionamento político lato sensu do movimento espírita a respeito de tais temas.
Este é o terceiro ponto.
Consignado o respeito a quem pensa diferente, mas entendo que é inaceitável a omissão dos espíritas e, sobretudo, do movimento espírita sobre temas centrais do debate político.
É verdade que muitos espíritas, individualmente, têm louvável conduta e participam ativamente da vida política da nação, posicionando-se com respeito, racionalidade e ética.
Mas são iniciativas pessoais e não suprem o vácuo deixado pela omissão do movimento espírita.
Há, por certo, um elogiável cuidado para que se evite que pessoas usem instituições e a doutrina espírita como mote para auferir vantagens políticas e eleitorais.
Trata-se de um zelo fundado e razoável, mas que tem sido levado ao extremo, revelando-se inflexível dogma, que deve ser repensado urgentemente.
O termo política é polissêmico e aberto. Por isso, abriga várias interpretações e usos. Não obstante isso, pode-se afirmar que, de um modo geral e na sua acepção clássica, política é a arte de administrar o bem comum.
Neste sentido, não me parece razoável o movimento espírita ser omisso, sobretudo em um momento tão importante para o país e para humanidade, que enfrenta desafios globalizados e crises graves, cumulativas e convergentes, dentre as quais o crescente relativismo moral e o fundamentalismo materialista, político e religioso.
Como aceitar que um segmento tão importante da sociedade simplesmente cale, fique omisso e torne-se um indiferente espectador diante de tudo isso?
Como construir um mundo de regeneração se no curso da grande transição planetária preferimos o sofá para nos agasalharmos como ilustres espectadores de grandes debates públicos?
Primeiramente, convém lembrar a questão 766, do Livro dos Espíritos. Vejamos:

766 - A vida social está na  Natureza?
Certamente. Deus fez o homem para  viver em sociedade.

Portanto, a opção por isolar-se apenas no estudo da doutrina é um erro. Temos de sair da bolha “transcendental” e interagir com os desafios postos pela vida em sociedade.
Por outro lado, não basta que o espírita não faça o mal. É preciso agir proativamente. Ter atitude. Impõe-se participar efetivamente dos grandes desafios da humanidade. Jesus já dizia que quem com ele não somava, espalhava. Não fazer o bem, não participar das lutas por um mundo melhor, não se posicionar é ser conivente com o mal.
Kardec, no Cap. XVI, item 7, do Evangelho Segundo o Espiritismo, elucida: Com efeito, o homem tem por missão trabalhar pela melhoria do planeta.
A questão 573, do Livro dos Espíritos complementa o entendimento:

573. Em que consiste a missão dos  Espíritos encarnados?

“Em instruir os homens, em lhes  auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais (...)”

As questões 642 e 932 do Livro dos Espíritos reforçam minha convicção. É ler:

642. Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?

“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”

932. Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons?

“Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão.”


Estas questões do Livro dos Espíritos estão alinhadas com a clássica afirmação do líder negro Martin Luther King: “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas.






[1] EMMANUEL; XAVIER, Chico. A Caminho da Luz: Brasília: FEB, 1996, p. 188, 194.
[2] O livro A Caminho da Luz é uma ótima fonte de pesquisa a respeito deste aspecto do tema.
[3]EMMANUEL; XAVIER, Chico. O Consolador. Brasilia:FEB, 1995, p.49.