sábado, junho 24, 2006

Dor na consciência

“Faze tudo como se alguém te vigiasse.”
(Epicuro, Filósofo Grego)


Pense em uma pessoa que você ama profundamente, sem a qual sua vida seria diferente. Alguém a quem você quer muito bem e que fica triste quando algo lhe acontece. Agora imagine uma pessoa fazer-lhe mal e dar de ombros à situação, indiferente e sem remorso. Em 2005 completou-se 60 anos do ataque atômico a Hiroshima e Nagasaki. Quando a bomba caiu, instantaneamente foram incineradas 140 mil pessoas numa cidade e cerca de 350 mil em outra. Além dos mortos, restaram milhares de mutilados e contaminados pela radiação, todos com profundos traumas psicológicos da tragédia. Gerações seguintes ainda tiveram de suportar o efeito do ataque em seus filhos, muitos dos quais nasceram com alterações genéticas e graves deformidades. Perguntado, aos 90 anos, sobre o assunto, o piloto americano do Enola Gay – nome da mãe do piloto pintado na fuselagem do avião –, Sr. Paul Tibbets, declarou: “Você vai sempre matar pessoas inocentes ao mesmo tempo. Nunca travamos uma guerra em que civis não morressem. Gostaria que os jornais parassem com essa besteira de “ vocês mataram tantos civis...Eles tiveram o azar de estar lá.” Sadan Hussein, ex-presidente do Iraque, hoje preso, demonstra desprezo pelo Tribunal que o julga por crimes de guerra contra humanidade. Slobodan Milosevit, ex-presidente sérvio, acusado de praticar “limpeza étnica” contra minorias, morreu este ano solitário na prisão, sem demonstrar qualquer arrependimento. Ambos se diziam vítimas de perseguição política. Já ouviu isso né! O noticiário cotidianamente traz casos de crimes hediondos, muitos praticados por motivos fúteis, sem que os criminosos demonstrem qualquer atitude de penitência. Políticos se sucedem em atos ímprobos e inidôneos, ordinariamente desviando verbas públicas que seriam aplicadas em saúde, por exemplo. Agem assim e quando uma criança sucumbe por falta de atendimento digno em hospital público, ainda sobem em palanques para pregar – em discursos inflamados - a retidão moral, a conduta ilibada, com a mais convincente desfaçatez, fingindo não ter nada haver com o ocorrido.
Será que a consciência dele (a) não dói? Esta é uma pergunta comum, normalmente verbalizada quando se está diante de uma atitude má que choca, de uma ou mais pessoas desequilibradas que por onde passam deixam rastro de destruição e prejuízo. Não raro, nos deparamos com situações onde a pessoa que prejudica outra (s) não demonstra aparentemente nenhum remorso ou sensibilidade a dor causada em outrem. Muitas vezes, aparenta viver bem e proclama a quem quiser ouvir que, se for preciso, faz novamente. Noutra ponta, há casos onde vemos pessoas injustiçadas, sofrendo. Ibsen Pinheiro, ex-presidente da Câmara dos Deputados, certa vez, desabafou: “consciência limpa é a que dói”. É uma frase de efeito, mas não é apenas a limpa que dói. Consciências surradas pela culpa, mesmo a abafada, sofrem e geram muitos distúrbios e enfermidades. Por que? No livro dos espíritos, questão 621, Kardec pergunta aos espíritos superiores: onde está escrita a lei de Deus. A resposta é perturbadora: na consciência. Explicada está a passagem bíblica (Lucas, 8:16-17) que diz: “pois nada há secreto que não haja de ser descoberto, nem nada oculto que não haja de ser conhecido e de aparecer publicamente”. Deus nos colocou um vigia incansável: a consciência. É certo que muitas vezes vemos pessoas indiferentes a seus erros e atitudes desastrosas. Prejudicam pessoas e apesar de sucessivas chances para mudarem, continuam a prejudicar por toda vida. Elas também têm a voz da consciência. Ocorre que o orgulho, o egoísmo, a revolta, a ambição - entre tantos outros fatores e composições - criam uma crosta que gera a cegueira e surdez consciencial. Mas a consciência está lá, assim como as noções elementares – ou até mais elaboradas – do que é certo ou errado. Algumas não despertam nesta existência a seus equívocos e usam seu livre-arbítrio para escolherem uma vida criminosa, irresponsável e egoísta. Outras cedem a pressão da consciência e quedam sob o peso da culpa. Começam ainda neste plano de existência a expurgar seus erros, não como mera punição ou castigo, mas como resultado do que plantaram (lei de causa e efeito) e como ferramenta pedagógica para que aprendam pela dor – já que não quiseram aprender pelo amor e conhecimento – outras veredas a serem percorridas pelo seu espírito.
A história registra casos dramáticos. As grandes guerras mundiais são repletas de crises conscienciais. Otto Hahn, químico de escol da Alemanha e ganhador do Prêmio Nobel, sentiu-se envergonhado e profundamente perturbado quando cruzou a terra de ninguém, zona de batalha, então devastada pelo ataque com gás tóxico contra as tropas russas. Ao ver soldados russos agonizando, mediante terrível sofrimento, desesperou-se e tentou ele mesmo revivê-los e protegê-los com as máscaras dos oficiais do Exército. Era tarde. Outro químico alemão, prestigiadíssimo e ganhador do Nobel de química, foi o Dr. Fritz Haber, precursor da guerra química. Por causa de suas experiências e idéias, milhares de soldados perderam a vida agonizando mediante dores atrozes, arma que seria utilizada também nos campos de concentração contra judeus. Após os primeiros ataques Haber iniciou abatimento físico e psicológico, seguido da perda de sua esposa e filho mediante suicídio, crise que culminou em profunda depressão e com a seguinte declaração: “Estou lutando com forças em declínio contra meus quatro inimigos: a insônia, as exigências financeiras de minha ex-esposa, minha inquietação com o futuro e a sensação de haver cometido graves erros em minha vida.” O maior guerreiro de todos os tempos, Alexandre o Grande, abateu-se gravemente consternado, quando, em ataque de fúria, atacou e matou seu amigo Clito. Ao perceber o desatino, quis se suicidar e, detido, passou dias desolado, doente e inerte em seu quarto. Plutarco, historiador clássico, registra o comentário de Anaxarco, filósofo, ao ver o estado do guerreiro: “Ei-lo, então, este Alexandre, sobre o qual se fixam os olhares do mundo! Ei-lo estendido no chão como um escravo, desfazendo-se em lágrimas, com medo das leis e do julgamento dos homens, ele que para todos deveria ser a lei personificada e a justiça! Para que venceu? (...). Há, contudo, quem tente fugir do tribunal consciencial. Pilatos lavou as mãos no julgamento de Cristo, enquanto Judas se suicidou. Há quem minta, quem negue, quem não queira falar a respeito ou beba para adormecer a dor na consciência. Entretanto, nada mata a consciência. Cedo ou tarde, nossa vida será passada em revista e teremos de enfrentar o Tribunal da Consciência. Diante de crimes, é comum ouvirmos: _ Só quero justiça! Contudo, muitos fogem de enfrentar suas responsabilidades. Jesus ensina: “Reconcilia-te o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil.” (Mateus, 5:25 e 26). Às vezes ouvimos declarações furtivas do tipo: _ Estou com minha consciência tranqüila. Lá dentro da cabeça do declarante, entretanto, está a maior confusão. _ Não tô tranqüila não! Alguém está me ouvindo?! É mentira! Estou tensa! Não tenho paz. E o declarante arremata: _ À noite coloco minha cabeça no travesseiro e durmo como um anjo. _ Hoje à noite mesmo não. Te prepara pra insônia meu querido. Avisa a consciência. O quê? A sua anda agitada assim? Hum, melhor conversar com ela e rever rumos. Aí reside o inferno ou o céu. Emmanuel Swedenborg, maio filósofo escandinavo, assinala: “ O bem e o mal que fazemos estão escritos em nosso cérebro, e os anjos descobrem a nossa autobiografia.”

Um comentário:

Flávio Mussa Tavares disse...

Denis,
O seu blog é de um filósofo que escreve sobre o Espiritismo com uma profunidade que merecia um livro.
Torço para que voce inicie logo o seu projeto literário, pois todos nós só termos a ganhar.
A nossa doutrina precisa de escritores encarnados, pois a safra dos desencarnados , francamente, está deixando a desejar.
Um forte abraço.
Flávio