sábado, setembro 02, 2006

PERDOAR É DIFÍCIL, MAS...

“O que não me destrói me torna mais forte.”
(Martin Luther King Jr.)


Já faz mais de 10 anos, talvez 12 ou 15. O estádio Mangueirão em Belém estava absolutamente lotado. Havia cerca de 50 mil pessoas. O jogo estava sendo transmitido pela Rede Globo em rede nacional e o Remo vencia de 1 a 0 o poderoso Corinthians, então cheio de estrelas da seleção. A vitória garantiria a classificação à outra fase da Copa do Brasil. O Remo estaria entre os oito melhores times do país. O resultado era uma surpreendente zebra. Tudo era alegria na arquibancada e minha voz já faltava de tanto cantar. Por volta dos 40 minutos do segundo tempo, o Remo faz uma substituição. Entra um habilidoso atacante. Aos 48 minutos – 3 após o tempo regulamentar – um escanteio contra o Remo. A torcida não parava de cantar. Tínhamos em campo o melhor zagueiro de toda história do clube paraense e o goleiro estava num dia de gala. A lógica era: bateu o escanteio, a zaga tira a bola e o juiz acaba o jogo. Simples. A bola cruza a área e após uma rebatida sobra para o jovem e talentoso atacante que acabara de entrar. Tranqüilo – pensei – agora é só tirar. Ele dominou a bola e mais que rapidamente chutou. Um silêncio opressor tomou conta do estádio. Podia-se ouvir o coração do jovem atacante bater acelerado. Olhei pro meu irmão ao lado para confirmar e ele confuso falou: _ Não acredito! Um sussurro fúnebre ergueu-se da arquibancada perplexa. No campo o brilhante zagueiro azulinho estava com as mãos na cabeça. O goleiro de joelhos, paralisado. A bola, assustada, no fundo das redes. Infelizmente o rapaz fez um gol contra. Aliás, um golaço. Era o fim. Nunca me achei um torcedor fanático. Sempre soube perder e minha tristeza sempre foi muito superficial e passageira. Mas nesse dia estava arrasado. Era um momento especial para nosso time. A torcida fazia uma festa pacífica e linda. Como pode um atacante (que tem por função fazer gol no adversário) entrar faltando poucos minutos para o final e fazer um gol contra? Mal dormi. Acordei cedo para assistir o telejornal. Queria ouvir sua explicação, olhar nos seus olhos. Para ser sincero, queria vê-lo chorando, sofrendo, desesperado (Não, não era um obsessor, era eu mesmo). Alguns minutos depois ali estava ele, na tela, com uma tranqüilidade insuportável. “_ Infelizmente aconteceu, faz parte. Agora é bola pra frente.”. Como é que é?! Faz parte?! Bola pra frente?! Que conversa é essa! Nem uma única lágrima. Passei muito tempo lembrando aquela entrevista. Uns dois anos depois, eis que o rapaz aparece na TV. Tinha se tornado pastor evangélico. Qual foi minha reação? _ É tu tens que rezar muito mesmo para apagar teus pecados! Credo, ainda estava com raiva, tanto tempo depois. Perdão então... nem pensar.
Agora já o perdoei. Aquilo foi apenas um gol. Um acidente sim, promovido pelo nervosismo de um jovem profissional. Só isso. A inferioridade era minha, não dele.
Sei que meu caso era simples. Há transtornos, dramas e prejuízos causados por outras pessoas que envolvem situações mais sérias e complexas.
Certa vez ouvi um rapaz no Centro Espírita dizer que a felicidade passa necessariamente pelo perdão. Poucas assertivas me fizeram pensar tanto como esta. Ele tem razão.
Um dos fatores mais determinantes à evolução espiritual é o perdão. Mensagens do plano espiritual e pesquisas científicas confirmam os benefícios do perdão. Quem perdoa é leve, livre, versátil, tem um sistema imunológico mais saudável e tem índice de felicidade maior. Ao revés, quem tem muita dificuldade de perdoar é tenso, embotado, instável, adoece mais e sente-se mais infeliz.
Jesus insistiu muito sobre essa lição. Ela está em várias passagens da Bíblia. Ele sabia de nossa necessidade e, principalmente, sobre a dificuldade que muitos sentem de perdoar.
Perdoar não é um ato, uma palavra. O perdão é o final de um processo mais ou menos longo – dependendo da evolução e vontade do espírito – que culmina com uma redenção: de quem perdoa e de quem é perdoado. É a maior expressão da liberdade, pois quem perdoa liberta-se do passado e de pesos emocionais desnecessários, que com o tempo se transformam em prisão.
Esse processo inicia-se com a disposição de enfrentar o assunto. Muitas pessoas sequer cogitam a possibilidade de perdoarem seus desafetos. Fixam obsessivamente o fato que as machucou e alimentam mágoas, ressentimentos, raiva, ódio e desejos de vingança. Um calabouço, cuja chave para liberdade está à mão. Portanto, o primeiro passo é abrir-se. É experimentar, tentar superar essas barreiras emocionais, visualizar a vida que existe além dos muros do cárcere.
Mas não basta abrir-se, importante também se desarmar. Às vezes a pessoa até aceita falar a respeito, mas já tem sua opinião formada, suas verdades imutáveis, sua questão fechada, sua justificativa para não perdoar. Finge ouvir as ponderações contrárias, mas não as considera realmente. Sua inflexibilidade sabota o processo do perdão. Depois dirá que tentou, quando na verdade, nunca esteve disposto a ir em frente.
O mais importante passo é buscar compreender o que aconteceu. Não a palavra, o ato ou a situação – isoladamente - que lhe machucou. É preciso ampliar o enfoque. Voltar um pouco, nos fatos e na história das pessoas envolvidas. Lá atrás sempre se encontram motivos que explicam muita coisa, embora possa ser confortável para você dizer que “isso não justifica.”
Quem agride, desrespeita, machuca o outro está precisando de ajuda. Muitas vezes a agressão é o estágio final de uma enfermidade do espírito. Não raro é um grito pedindo apoio, atenção, socorro. Quando se procura perceber a pessoa e seus dramas – por trás do ato em si – ver-se-á que o comportamento dela, por mais reprovável que seja, tem um motivo. Pode não justificar, mas lhe dá humanidade.
Imprescindível, outrossim, é não julgar. Jesus advertiu que quem julga o outro a si próprio está julgando e estabelecendo os critérios de julgamento. Quanto mais duros formos com as faltas alheias, mas as nossas serão valorizadas no Tribunal Divino.
Fundamental é ter humildade. Muitas vezes nós que demos causa, outrora, a um início de desentendimento que, mais tarde, motivou a situação que nos desagradou, mas esquecemos e imputamos toda responsabilidade ao outro. É mais fácil, mais cômodo. Reconhecer o próprio erro é muito difícil. Mais fácil é apontar “o cisco no olho do outro.” Essa característica humana fez Confúcio, o grande mestre e filósofo chinês, lamentar: “Acho que devo abandonar as esperanças. Ainda estou para conhecer o homem que, ao ver os próprios erros, seja capaz de se criticar internamente.”
Não raro por trás da negativa de perdão há menos dano real e muito orgulho. Quase sempre é o orgulho que impede que perdoemos. Aliás, muitas vezes a pessoa até se convence que tudo foi um mal entendido ou um mal menor, mas recusa-se a “dar o braço a torcer”, prefere procurar outros motivos para manter a posição, ao invés de ser mais humilde e buscar uma reaproximação. Um pouquinho de humildade não faz mal para ninguém. Facilite a reconciliação. Interprete o pedido de desculpas ou simples sinais implícitos de gentilezas como um pedido de perdão. Para demonstrar nosso amor, não precisamos dizer eu te amo. Por que exigimos que a pessoa verbalize o pedido de perdão? Ele pode estar num sorriso amável, no silêncio respeitoso, no olhar compassivo, na gentileza gratuita. Disse o magistral escritor Machado de Assis: “Não levantes a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão.”
Jesus, a quando de sua prisão, advertiu Simão Pedro para que guardasse a espada (Mateus: 26, 52 a 53): “Embainha de novo tua espada! Porque todos aqueles que usam da espada, pela espada perecerão.”
Não deixe que sua imaginação alimente suas mágoas e aumente os fatos. O ressentimento se alimenta de fatos que não ocorreram, de palavras que não foram ditas, de gestos que não se expressaram, de situações inexistentes. Vale a dica do humanista Guerdjef, que foram colocadas no Instituto Francês de Ansiedade e Stress de Paris: “Diferencie problemas reais de imaginários e elimine os imaginários, porque são pura perda de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.”
Jorge Luiz Borges, o mais brilhante escritor argentino, no seu belíssimo poema Instantes, também pondera: “Se eu pudesse viver novamente (...) teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.”
Em verdade, devemos valorizar nossos desafetos. Todos somos filhos de Deus. Portanto, por mais que isso lhe incomode, seu desafeto também tem procedência e a centelha divina e, não raro, tem muitas virtudes, algumas das quais você sequer desconfia e outras tantas que você ainda não adquiriu. Você pode ser mais evoluído em algumas coisas e seu desafeto bem mais evoluído que você em outras. Portanto, ele tem aspectos apreciáveis. Ele errou, mas não é o próprio erro. É preciso olhar o outro como um todo e não resumi-lo a um deslize. Noutro quadrante, muitas vezes – entenda isso – o seu desafeto está com a razão. Sim, o que ele falou ou fez machucou – talvez o jeito, o momento -, mas no fundo é pro seu bem. Aliás, poucos amigos conseguem nos melhorar tanto quanto nossos maiores inimigos. Amigos são tolerantes, os desafetos não descansam, nos forçam a melhorarmos, a buscarmos mais e, ainda, nos fazem ser mais vigilantes. É verdade que muito dessas melhoras é “só pra não dá o gostinho”, mas – apesar disso - se não fossem eles, estaríamos piores. Pela lógica, devíamos é ser gratos a esse adversários. Eles são ótimos instrumentos evolutivos.
Não sem razão, que o hábil poeta francês Vitor Hugo, assinalou com sutileza em seu festejado poema Desejo: “Desejo ainda que você tenha inimigos. Nem muitos, nem poucos, mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas próprias certezas.”
Entenda que seu desafeto não precisa ser seu amigo, mas tampouco precisa ser seu inimigo mortal. Não haja de cabeça quente. Se você ainda não consegue perdoar, esqueça. Não fique valorizando, justificando seu ressentimento, pois isso só lhe dá mais força. E – em hipótese alguma – se vingue. A vingança não é um prato para se comer frio. É um compromisso para ser pagar noutra temperatura.
Não há dúvida que um dos episódios mais marcantes sobre o assunto envolve o comerciante Massataka Ota. Três homens seqüestraram e mataram – no mesmo dia - seu filho, Ives Ota, de 8 anos. O seqüestro aconteceu no dia 29 de agosto de 1997. Em 2002, o Fantástico começou a exibir um quadro chamado Hora da Verdade, onde a vítima e o criminoso eram colocados frente a frente. Massataka Ota decidiu que ia participar do programa. Queria provar para si mesmo que podia perdoar os seqüestradores e libertar-se dos sentimentos que estavam destruindo sua vida. Antes, orou muito para fortalecer-se para o momento. Dias depois ele estava frente a frente com Adelino Donizete Esteves no presídio de Avaré, onde este cumpre pena. “No momento em que fiquei frente a frente com ele, não senti raiva, simplesmente conversei. Eu disse a ele: 'É duro para um pai vir aqui. É fácil salvar um amigo, é difícil salvar um inimigo. Mas eu estou aqui pra te salvar. Eu conheci sua filha de cinco anos, e quero que você saiba que desejo para ela o contrário do que você fez com o meu filho. Quero que ela cresça, que tenha um casamento muito feliz e tenha muitos filhos. Os olhos dele começaram a lacrimejar, e aí ele me falou que ia cumprir a pena dele direitinho. Saí do presídio com o meu coração limpo.” Hoje Massataka Ota ensina: “A vingança é uma ilusão.” Pode-se dizer que ele tem as características de um homem de bem, decantadas no Capítulo XVII, item 3, do Evangelho Segundo o Espiritismo: “Não alimenta ódio, nem rancor, nem desejo de vingança; a exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas e só dos benefícios se lembra, por saber que perdoado lhe será conforme houver perdoado. É indulgente para as fraquezas alheias, porque sabe que também necessita de indulgência e tem presente esta sentença do Cristo: “Atire-lhe a primeira pedra aquele que se achar sem pecado.” Nunca se compraz em rebuscar os defeitos alheios, nem, ainda, em evidenciá-los. Se a isso se vê obrigado, procura sempre o bem que possa atenuar o mal.”
A espiritualidade superior não cansa de repetir: pague o mal com o bem. De alguma forma e em algum momento a vida lhe dará oportunidade de ser gentil, útil ou bondoso com seu desafeto. Não perca essa oportunidade. Mas não faça isso para se mostrar superior, faça como uma chance de reconstruir a relação, ainda que noutro nível. O notável Francis Bacon ensina: “A mais alta vingança de uma injúria é o esquecimento.”
Não perca tempo. O perdão nos liberta, nos alivia, tira um peso da alma e lhe traz novos horizontes. Por isso Shakespeare o glorificou: “O perdão cai como um chuva suave do céu na terra. É duas vezes bendito: bendito ao que dá e bendito ao que recebe.” Existe, à propósito, um texto belo onde Madre Tereza de Calcutar responde a perguntas diretas. Duas chamam atenção: “Qual o pior sentimento? _ O rancor. Qual o sentimento mais belo? _ O perdão.”
Certa vez um repórter perguntou à Gandhi se ele tinha perdoado um agressor. Mahatma Gandhi respondeu: _ Não perdoei. Todos ficaram surpresos e ele completou: “_ Não perdoei porque nunca me senti ofendido.”
Marco Aurélio (121-180 d.C), o imperador filósofo, que conduziu Roma a seu último período de glórias, foi vítima de uma tentativa fracassada de conspiração. Sem que soubesse, a conspiração foi descoberta, reprimida e seu mentor executado. Ficou muito triste quando soube, por ter perdido a chance de perdoar o inimigo. Quando lhe entregaram a correspondência do conspirador, ele a queimou sem lê-la e mais tarde deixou sublime lição a respeito: “Sempre que você se desentender com alguém, lembre que em pouco tempo você e outro estarão desaparecidos.”
Cada um levará consigo apenas o que fizeram de suas vidas. De muitas atitudes nos arrependeremos, de outras não. Uma destas é perdoar. Vale a citação de Malba Tahan:
“Nunca te arrependerás:- De teres freado a língua, quando pretendias dizer o que não convinha....- De teres pensado antes de falar.......- De teres perdoado aos que te fizeram mal....- De teres suportado com paciência faltas alheias....- De teres sido cortês e honesto com tudo e com todos.”
Por fim, devo confessar que também já fiz um gol contra. Para ser sincero, mais de um. Também não chorei . Na verdade, todos nós fazemos gols contra na vida. Não adianta ficar remoendo o passado. Vale a lição do ex-desafeto jogador: “bola pra frente.” (Quem diria que anos depois a mesma situação serviria como aprendizado).
Sei que é difícil, mas é preciso avançar. Fiquemos com o roteiro que o espírito André Luis nos concedeu através de Chico Xavier: “Jesus ilumina o caminho, mas quem tem que percorrê-lo somos nós.”






5 comentários:

Amanda Longhi disse...

Ei Chefe Denis, ainda bem que isso não acontece com o papão... rsrsrsrsr... brincadeirinha.

Que texto excelente!!!! Depois de lê-lo pensei que perdoar não é das tarefas mais fáceis do ser humano, pois como vc mesmo disse "Perdoar não é um ato, uma palavra. O perdão é o final de um processo mais ou menos longo – dependendo da evolução e vontade do espírito – que culmina com uma redenção: de quem perdoa e de quem é perdoado. É a maior expressão da liberdade, pois quem perdoa liberta-se do passado e de pesos emocionais desnecessários, que com o tempo se transformam em prisão".

Bjs.

Anônimo disse...

E o camarada ainda virou pastor, hein? Que estrada! Do "inferno" ao "céu"... Um grande abraço e parábens pelo texto!

Raphael Ramos.

Anônimo disse...

Excelente mensagem!

Brito. disse...

Adorei... ótimo!!!Obrigado por ter me enviado esse texto.

Nagila Pessoa disse...

Muito bom o texto!! Nós leva a agir!!