domingo, setembro 17, 2006

O Homem Amor


“Basta um minuto para fazer um herói, mas é necessária uma vida inteira para fazer um homem de bem”
(Paul Brulat, romancista francês)



Nesta semana, o maior país católico do mundo, deu uma lição de singular maturidade espiritual, reconheceu através de maciça votação, Chico Xavier como o maior brasileiro de todos os tempos. Para se ter uma idéia da expressividade da votação do médium mineiro, Ayrton Senna, o segundo colocado, atingiu pouco mais da metade da votação de Chico. Lula, o atual Presidente da República, líder das pesquisas eleitorais, não conseguiu sequer atingir 7% da votação do mais famoso espírita brasileiro.
No ano que o povo brasileiro – tão descrente da política – terá de eleger uma “nova” geração de políticos para gerir os rumos do país, a eleição de Chico é um bálsamo.
Detalhe interessante, a revista Época disponibilizou inicialmente 50 sugestões de brasileiros notáveis. Chico não estava sequer entre as sugestões da revista. Não precisou de muito tempo para a revista perceber o equívoco. Rapidamente os leitores redimiram Chico. Afinal, em eleição, a voz do povo é a voz de Deus.
Chico já tinha aprontado outra dessas. Em 2000, deixou concorrentes de peso para trás, quando foi escolhido em outra votação gigantesca o Mineiro do Século, em eleição promovida pela revista Isto É . Com 704.030 votos deixou nada menos que Santos Dumont – segundo colocado -, Pelé, Betinho, Carlos Drummond de Andrade e Juscelino Kubitschek para trás.
Desta vez, em votação paralela, uma comissão de 33 personalidades escolheu o jurista, político abolicionista e estadista Ruy Barbosa – bela escolha - como o brasileiro do século. Estranhamente, porém, a revista Época deu a capa à Ruy Barbosa, que obteve 4 votos da Comissão, desconsiderando os quase 10 mil votos recebidos por Chico Xavier, a quem coube discreta janela no canto superior direito da capa. Tudo bem, Chico nunca gostou de evidência, isso é pequeneza nossa.
Deslizes à parte, a eleição de Chico é uma homenagem à sua vida. Os pormenores da eleição do maior brasileiro da história estão na edição n. 434, de 11 de setembro da revista Época. Já algumas informações sobre a vida dessa singular personalidade, estão a seguir e são – para muitos – desconhecidas. Por isso, resolvi postar este artigo.
Afinal, conhecer a história de vida de Chico é vislumbrar do que o espírito humano é capaz. Num período em que a diferença entre bem e mal já não é tão nítida, por causa da relatividade moral, Chico é a história viva da bondade simples, pura, sem afetação ou falso heroísmo.
Para entender a importância de Chico, impõe-se que se amplie o foco e se olhe mais longe. Quando a Espiritualidade Superior antevê época de crise moral, de decadência de valores, providencia a reencarnação de espíritos fortes, dotados de dons ímpares e virtudes bem acima da média da sociedade. Mas não apenas isso. Tais espíritos devem ter granítica solidez de caráter para resistir as tentações envolventes, as armadilhas pérfidas, as mentiras pútridas, as decepções pungentes e as críticas ácidas. Nesse território inóspito, os simples mortais recuariam, desistiriam. Só os espíritos superiores resistem.
A missão é alavancar a evolução da humanidade.
Dura missão. Caminho pedregoso, cheio de espinhos e serpentes, que deve ser percorrido de peito aberto, pés descalços e carregando nos ombros o peso da desconfiança geral. Caminhada árdua e extenuante, cujo único oásis é a paz de espírito.
Não raro, o reconhecimento vem depois, muito depois. Quando vem. A compreensão completa da obra e vida demora muito mais tempo.
Uma dessas reencarnações missionárias iniciou seu curso em 1910, na pacata cidade mineira de Pedro Leopoldo. Apesar do cenário de áspera pobreza, Chico reencarnara com sorriso fácil e energia cativante, mas metido num corpo franzino, frágil. Nascia uma lenda. Podia ser mais um Chico, mas foi quem foi.
Dotado de uma mediunidade prodigiosa, apenas menor que sua humildade e disposição de fazer bem ao próximo, catalisou atenção do mundo todo, de pobres e poderosos, de crentes e céticos, arrancando de todos, ao final de sua existência, confissões surpreendentes de respeito, admiração, júbilo.
Como qualquer médium que cresce em família não espírita, sofreu preconceitos e reprimendas. Seu pai, dedicado vendedor de lotéricas, não aceitava as “esquisitices” do filho. A mãe não compreendia, mas confiava nos relatos do filho. Chico viu a irmã sofrer na pele o peso de uma mediunidade não educada. Viu sua infância passar rápida. Perdeu a mãe cedo, quando tinha apenas 5 anos. Foi entregue pelo pai à madrinha, Maria Rita, em cujas mãos sofreu sucessivas agressões e castigos.
Foi nessa época que Emmanuel se apresentou a ele como guia. Chico aceitou a missão. Emmanuel exigiu disciplina e para começo de trabalho a publicação de 30 livros. Eram os primeiros do total de 409 que deixou psicografados. Sua obra ampliou e revolucionou as informações sobre o que se conhecia sobre vida após a morte, muitas das quais foram confirmadas anos depois por experiências científicas neutras, notadamente as de Transcomunicação Instrumental – TCI, Experiências de Quase Morte – EQM e Terapia de Vidas Passadas – TVP, quase todas conduzidas por não espíritas.
O primeiro desses livros foi o impactante Parnaso do Além Túmulo, publicado em 1932. A obra trazia 59 poemas de 14 poetas já desencarnados. Todos artistas consagrados, como Olavo Bilac, Casimiro de Abreu, Castro Alves e Augusto dos Anjos. A comunidade literária reagiu e a polêmica durou meses, com direito à minuciosa investigação. Ao final, muitos ainda não estavam convencidos que aquele homem, filho de pais analfabetos, que tinha concluído apenas os estudos do primário não era um farsante, mas uma declaração lapidar publicada no editorial do Jornal O Estado de São Paulo descrevia o sentimento da maioria: Se Chico não recebe os textos de espíritos, deveria ter direito a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
Chico sempre enfrentou perseguições e desconfiança. Céticos, religiosos, cientistas, intelectuais e oportunistas o cercavam, preparavam armadilhas para flagrá-lo, espalhavam boatos para o desacreditarem. Chico, orientado por Emmanuel, apenas seguia trabalhando.
_ O que o trabalho não resolve, eu também não resolvo Chico. Ensinava Emmanuel.
No meio da desconfiança, havia interesse também. Afinal, Chico era um médium extraordinário. Psicografava de trás pra frente, em línguas estrangeiras que não conhecia, antecipava fatos, descrevia nomes e minúcias insuspeitas de mortos e de cada história particular.
A NASA já havia investigado os dons de Chico. Em 1939, os russos mandaram cientistas para observarem o famoso médium. Propuseram uma viagem para testes em Moscou. Duraria vários meses. Chico se animou. Emmanuel, provavelmente sabedor do uso militar que a Rússia e EUA faziam desses dons, vetou a viagem. Chico insistiu que queria mostrar a pluralidade de sua mediunidade e de quebra construir casas populares com o dinheiro que ofertaram para viagem. Emmanuel foi direto.
_ Se quiser, pode ir. Eu fico.
O médium aceitou a orientação do guia e continuou trabalhando.
Chico sempre respeitou a ciência. Aliás, antecipara futuras descobertas científicas. No hermético livro Evolução em Dois Mundos adiantara, entre outras coisas, que “a matéria é luz coagulada”, conceito que fora confirmado, apenas anos depois, por Jack Sarfatti e David Bohn, cientistas americanos, no livro Space Time and Beyond.
Apesar de seus multifacetados dons, o que tornava Chico Xavier uma pessoa invulgar, única, era sua simplicidade e bondade. Podia ter ficado rico, muito rico. Afinal, foi e ainda é um best-seller. Em vida, seus mais de 400 livros só venderam menos que Jorge Amado, que já foi ultrapassado. Atualmente, Chico só perde para Paulo Coelho. São cerca de 25 milhões de exemplares vendidos. Chico renunciou em cartório os benefícios a si quanto aos direitos autorais e espalhou o bem. Fundou centenas de casas de caridade, beneficiando – segundo estimativas da Federação Espírita do Brasil – cerca de 100 mil famílias.
Mas – talvez - seu maior bem tenha sido consolar mães e pais pungidos de dor, pela perda de entes queridos. Dezenas de caravanas chegavam a cada final de semana em Uberaba e Pedro Leopoldo. Foram milhares de cartas com mensagens de entes queridos recebidas por intermédio do notável médium.
Até hoje milhares de mães e pais guardam com carinho essa benção que Chico intermediou. Algumas mensagens estão em livros e já está em produção um filme sobre mensagens que Chico recebeu.
Uma, entre tantas investigações, descobriu que 42,2% das famílias reconhecem nas mensagens o estilo dos filhos, sendo que 35% afirmam que as assinaturas são idênticas, conclusões muitas vezes confirmadas por perícias grafotécnicas. E o mais surpreendente: 100% das famílias afirmam acerto total dos dados noticiados nas mensagens. Ou seja, em nenhum dos casos investigados houve troca de nomes e sobrenomes, erro de endereços, filiações, detalhes da vida íntima, do círculo de amizades ou das causas e circunstâncias das mortes. A referida pesquisa tornou-se livro: A vida triunfa.
Nunca, repito, nunca uma única fraude.
Ressalte-se, ainda, que jamais recebeu um único centavo por causa de sua dedicação. Viveu uma vida simples, sustentada pela ínfima aposentadoria que recebia do Ministério da Agricultura.
Foi muitas vezes homenageado por seus trabalhos caritativos. Sua fama alastrou-se, apesar de sua discrição. Em 1981, mais de 2 milhões de assinaturas aderiram à campanha nacional que indicou Chico Xavier ao prêmio Nobel da Paz, coordenada pelo ex-diretor global Augusto César Vannucci. Entre os adesos estavam artistas famosos como Elis Regina, Tony Ramos e Lima Duarte. Aliás, a casa de Chico era uma peregrinação de artistas. Os cantores Roberto Carlos, Fábio Júnior, Vanusa e Wanderléia estiveram lá. Xuxa e Risoleta Neves, viúva de Tancredo Neves, também. O maior atacante da seleção brasileira de vôlei, Giba, que fora beneficiado por intervenção espiritual que lhe garantiu a carreira esportiva, também esteve com Chico, entre tantos outros.
Chico concorreu ao Nobel da Paz com João Paulo II, mas quem levou o Nobel foi o Alto Comissariado da ONU para refugiados.
Chico tinha uma energia contagiante. Não sou de muitas lágrimas, mas nunca consegui as conter quando ele aparecia na televisão. Não havia explicação, simplesmente me emocionava ao ver um gigante enclausurado naquele corpinho frágil, curvo, mas incansável.
O jornalista Marcel Souto Maior – que além de não ser espírita, é cético -, autor dos festejados livros As Vidas de Chico Xavier e Por Trás do Véu de Isis sentiu na pele o que eu sempre senti. Pouco tempo antes de Chico desencarnar, o jornalista esteve em Uberaba. Tentou falar com Chico, mas ele já estava muito debilitado e isolado por um círculo de amigos. Numa das noites na cidade, o jornalista resolveu ir até o Grupo Espírita da Prece. Para sua surpresa Chico apareceu, fato que não acontecia há tempos. Corpo abatido, caminhava amparado pelos amigos. O sorriso aberto estava lá, como sempre. De repente, Marcel Souto Maior se viu chorando descontroladamente. Não sabia o pôr que, nem conseguia parar. Parecia uma reação instintiva do corpo, tal como o movimento da respiração diante do ar. No primeiro livro seu citado acima, narra a luta contra as lágrimas “_Desabavam à minha revelia, aos borbotões, sem nenhum controle.”
Acho que quem conheceu Chico nunca praticou esportes radicais. Não precisava. Bastava estar perto de Chico, eram fortes emoções.
Quando deixou a matéria em 30 de junho de 2002, o Brasil que - comemorava o quinto título mundial de futebol – parou para chorar a perda de um ilustre brasileiro, talvez o maior de todos. Para mim foi e é, por certo. Foi decretado feriado em Uberaba e luto oficial por 3 dias no Estado de Minas Gerais. O Presidente Fernando Henrique divulgou nota oficial ressaltando o valor de Chico. O corpo do líder espírita foi velado por 120 mil pessoas e exigiu a mobilização da polícia e dos bombeiros.
Esta eleição, onde Chico Xavier foi considerado o segundo maior brasileiro de todos os tempos, impõe reflexões: como pode um homem simples, matuto do interior de Minas, filho de pais analfabetos, que nunca usou os meios de comunicação para se promover, que nunca exigiu gratidão, que fugia dos holofotes e das polêmicas, se tornar um gigante ao ponto de ser reconhecido pelo povo brasileiro mais importante que ídolos e expoentes como Ayrton Senna, Pelé, Padre Antônio Vieira, Oscar Niemeyer, Tom Jobim, José Bonifácio, Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, Tiradentes, Santos Dumont, Tancredo Neves, Machado de Assis, dentre tantos brasileiros que tornaram nosso país melhor. O que Chico tem a mais: Chico tornou o mundo melhor.
Óbvio que jamais aceitaria um elogio desses. Enquanto a maioria das pessoas fica mendigando elogios, reconhecimento, aplausos e gratidão, Chico Xavier se diminuía. Sempre que alguém começava a desfilar afagos, Chico desviava com bom humor: sou apenas um cisco, Cisco Xavier.
Salve Chico.

2 comentários:

Fabiana Araújo disse...

Dr. Denis,

Perdoe-me a liberdade, mas hoje depois de ler seu último artigo "O homem amor", senti vontade de parabenizá-lo por tão belas palavras, as quais me emocionaram bastante.

Sou espírita desde pequena, e após ler o que escreveu percebi o quão é elevado seu espírito.

Percebe-se que somente um espírito muito evoluído como o seu poderia ter a abençoada sensibilidade para apreciar e entender a postura de Chico, sem taxá-lo ou julgá-lo.

A espiritualidade maior agradece, assim como eu, pelo Sr. estar espalhando uma doutrina tão bela e perfeita como o Espiritismo, de uma maneira clara e espontânea.

Finalmente, desejo que os bons espíritos o acompanhem e o iluminem, que seu guia espiritual o inspire cada dia mais e mais, e que seu anjo guardião nunca lhe falte.

Cordialmente,

Fabiana Araújo Maciel.


Que assim seja.

Anônimo disse...

Belíssimo texto!!!
Um país políticamente incorreto, mas espiritualmente correto. Viva a eleição de Chico!
PS. Quero que vc me confirme se na próxima quinta (dia 04) terá palestra do Alberto na União.
Abrax
Leila