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domingo, julho 02, 2006

Riqueza e fama: provas perigosas

“Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para ficar bem claro
Quem é o dono de quem.”
(Victor Hugo, poeta e escritor francês)



Outro dia estava me preparando para uma partida de futebol. Eis que sinto uma dor insistente no pé. Tiro o sapato e a explicação: uma bolha. Fiquei todo entusiasmado, pois, coincidentemente, naquela semana Ronaldo Fenômeno apareceu nos treinamentos para Copa com uma bolha e foi o assunto da hora na imprensa do mundo todo. Ninguém jamais ouviu tantos estudos e opiniões sobre bolhas como naquela semana. Mostrei a minha bolha a um amigo e o diagnóstico dele foi insensível, quase desumano: é calo! Calo?! Que papo é esse? É bolha! Meu quase ex-amigo foi inflexível: é calo! Melhor mostrar para um irmão. Sabe como é, irmão é mais condescendente. E não é que meu irmão foi mais impiedoso em seu diagnóstico: é esporão de galo! Esporão de que? É bolha, igualzinha a do Ronaldo Fenômeno! Essa mesma não! Resistiu meu irmão. Desisti. Por que Ronaldo tem bolha e eu tenho calo ou até esporão de galo? Por que pobre tem amante e ricos têm affair? Por que famosos têm indisposição enquanto os simples mortais têm diarréia? Por que quando um cidadão normal usa combinações de roupas diferentes é brega e os famosos são descolados, fashion?
Pois bem, é esse glamour que separa os simples mortais de um pequeno punhado de seres humanos que têm de enfrentar algumas das principais provas para a evolução do espírito, quais sejam: a riqueza, a fama, a beleza e o poder. Hoje conversaremos apenas sobre a riqueza e a fama, ficam a beleza e o poder para outra oportunidade.
O Budismo ensina que o desejo está na base dos sofrimentos humanos. Quanto mais desejamos, mais sofremos. Nossa sociedade vende desejos. Basta ligar a TV e você logo fica com vontade de tomar um refrigerante, de comprar algo novo – que de regra você não necessita -, de fazer uma lipoaspiração, de ter quinze minutos de fama. Um dos mais brilhantes espíritas de todos os tempos, Léon Denis resumiu com ímpar sabedoria a lição sobre o assunto: “Uma das formas de riqueza é ter poucas necessidades.”
Epiteto, proeminente filósofo grego, certa vez mandou uma carta a um homem rico nos seguintes termos: “Eu não preciso de nenhuma dessas coisas e, afinal de contas, tu és mais pobre do que eu. Tu tens baixelas de prata, mas paladar de barro. O meu espírito é um reino para mim e proporciona-me uma ocupação prolongada e feliz, em vez de tua preguiça ociosa. As tuas propriedades parecem-te ainda pequenas, as minhas parecem-me grandes. Os teus desejos são insaciáveis, os meus estão satisfeitos.”
Não é a riqueza ou a fama que é má, que condena à perdição. Esse é um discurso equivocado. Tudo é uma questão de atitude. Elas são provas perigosas, isto sim. Perigosas porque proporcionam muitas e diversas facilidades. Dão acesso a um mundo fora da realidade da grande maioria dos mortais. Nesse mundo, pode-se muita coisa e quase tudo em relação ao que é certo e errado é relativizado para que se possa aproveitar bem a fama e a riqueza. Ou seja, sempre tem alguém para justificar comportamentos, modismos. Na prática, fama e riqueza escancaram as portas de quase tudo. Por isso a advertência bíblica: larga é a porta que conduz à perdição. Muitos que atravessam essa porta se deslumbram, ficam alienados quanto às necessidades dos outros e, não raro, levam uma vida egoísta, preocupada apenas com a satisfação de seus próprios desejos. Tornam-se indiferentes, insensíveis a tudo que não lhes traga um benefício, uma aventura, um prazer, um elogio. Muitos se deixam escravizar pela riqueza e fama, que por ela fazem qualquer coisa. Outros se deixam arrastar, hipnotizados, e tentam levar uma vida além das possibilidades financeiras. Vivem de aparências. Quantas crises, crimes, ódios, dissensões e rivalidades se dão por causa da riqueza e da fama? Mas há quem lide muito bem com efemeridade da fama e da riqueza. E não são poucos. Muitos transformam riqueza em investimento no progresso, em transformação social, na criação de empregos, no fomento de cultura, sem se perder em vãs ilusões de arrogância e superioridade. São pessoas de bem, que enfrentam a prova da riqueza e fama com temperança e galhardia, se destacando entre outras que levam uma vida vazia, focada apenas no imediatismo, sempre ansiosas pela próxima aquisição e prazer. Com a fama não é diferente, muitos lidam bem com a oportunidade de usarem sua imagem pessoal em prol de causas que vão além do solipsismo de seus egos. Einstein, Gandhi, João Paulo II e Jimmy Carter usaram sua fama para promover a paz. Dalai-Lama para espalhar compaixão. Madre Tereza de Calcultar para beneficiar seus pobres. Betinho para lutar contra fome. Nelson Mandela para por fim ao apartheid. O piloto alemão de Fórmula 1, Michael Schumacher não se furta de participar de eventos filantrópicos e de fazer grandes doações em dinheiro. Bono Vox, vocalista da maior banda de Rock do planeta, U2, viaja o mundo lutando por bandeiras humanitárias, o mesmo que faz a atriz de Hollywood, Angelina Jolie e o consagrado cineasta Steven Spielberg. Aliás, uma das cenas mais marcantes em Nova Orleans, após a catástrofe promovida pelo furacão Katrina, foi do ator de Hollywood, Sean Penn, em um barco improvisado resgatando crianças. Bill Gates, o homem mais rico do planeta, já doou e continua doando milhares de dólares a pesquisas científicas que beneficiem as populações mais pobres do planeta, notadamente na África. O rico empresário Oskar Schindler salvou cerca de 1100 judeus dos campos de concentração nazista pagando por suas vidas. No Brasil, a atriz Letícia Sabatela é uma ativista de causas honrosas. Airton Senna ajudava deficientes físicos e lançou a semente do Instituo que leva seu nome e é referência na educação cidadã de milhares de jovens carentes. Os ex-craques da seleção brasileira de futebol, Raí e Leonardo, implantaram o projeto Gol de Letra. Ronaldo Fenômeno – aquele que ninguém tem coragem de dizer que ele tem um calo – é embaixador da UNICEF, entre tantos outros exemplos edificantes.
Como dito alhures, tudo é uma questão de atitude. Portanto, ninguém precisa se sentir culpado ou preocupado porque é rico ou famoso, tampouco fazer voto de pobreza e humildade. Necessário sim estar alerta. As facilidades seduzem discretamente, mudam nossos projetos, neutralizam as melhores intenções e cegam às verdadeiras finalidades da existência. No capítulo XVI, item 14, do Evangelho Segundo o Espiritismo está a lição: “O rico tem, pois, uma missão, que ele pode embelezar e tornar proveitosa a si mesmo. Rejeitar a riqueza, quando Deus a outorga, é renunciar aos benefícios do bem que se pode fazer, gerindo-a com critério. Sabendo prescindir dela quando não a tem, sabendo empregá-la utilmente quando a possui, sabendo sacrificá-la quando necessário (...)” Afinal: “Quem faz circular os empréstimos de Deus, renova o próprio caminho.” Assinala o espírito André Luiz, através da mediunidade de Waldo Vieira.
Nada impede, portanto, que se busque com parcimônia melhoras materiais. De outro lado, inadequado sentir inveja da riqueza ou fama dos outros. Cada espírito tem a prova que precisa. Deus não dá fardo maior à nossa capacidade de suportar. Às vezes desejamos ter uma vida que nos levaria ao desajuste, ao excesso, à queda espiritual. Ricos e famosos pagam preço alto pelo que possuem, pela privacidade que não têm, pelas críticas de que são alvo.
Agora, por exemplo, que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo e todos buscam culpados entre os famosos jogadores, estou mais resignado com meu calo ou esporão de galo (vejam a efemeridade da fama...)
Mas que era uma bolha... ah isso era.

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