quarta-feira, julho 12, 2006

Nada é por acaso?

“Saber para prever a fim de prover.”
(Augusto Comte)

Conheci no meu primeiro emprego um rapaz que me contou uma situação incrível que acontecera no dia anterior com ele. Era um espírita que tinha por clichê principal o popular “nada acontece por acaso”. Recém enamorado de uma jovem, no auge da paixão, foi conhecer a sogra. A recepção foi ótima e a relação com a mãe de sua amada teria sido perfeita, não fossem os constantes atrasos da namorada. Sempre que o rapaz chegava na casa da amada, ela – só para não perder o costume – não estava pronta. A sogra fazia sala e desde o primeiro dia ofertava ao rapaz um copázio de abacatada. Detalhe: meu colega não suportava abacatada. Mas sabe como é, o que não faz uma paixão. Ele colava o sorriso no rosto e num malabarismo facial tentava não demonstrar nas primeiras goladas o desconforto. Assim que a sogra pedia licença para ir apressar a filha ou fazer algo fora dali, ele jogava todo o restante da abacatada por uma janela que ficava bem atrás do sofá e que dava para um quintal esmo. Era uma atuação perfeita. Agradava a sogra, não perdia a nova namorada e não tinha de tomar a abacatada. A primeira quinzena passou tranqüila. Sogra, abacatada, janela, namorada. Sogra, abacatada, janela, namorada. Que eficiência, que destreza no lançamento do suco. Já fazia sem olhar. Certa noite, porém, tão logo a sogra sumiu no corredor, ele, lépido e seguro, virou o caneco com o mesmo bailado manual de sempre. De repente, ouvi um barulho alto e estranho. Vira-se e os olhos se arregalam perplexos. A janela estava fechada! O estrago na parede era devastador. O verde abacate espalhou-se qual tinta repicada, respingando janela, quadros, sofá, entre outras mobílias. O rapaz sequer teve tempo de recompor-se. Quando virou estava a namorada e a sogra chocadas. Adivinhe qual foi a primeira coisa que lhe veio na cabeça: _ Nada acontece por acaso! O que isso tem haver com a situação? Perguntei. Sei lá. Sempre usei essa frase para justificar o que não sabia explicar. Respondeu o ex-namorado e improvisado decorador. Anos depois quando o reencontrei, obviamente, não deixei de tocar no assunto. Desta vez, perguntei a ele qual foi a lição que ele tirou da situação. Ele sorriu e disse: nem sempre na nossa vida, as janelas estarão abertas. O cara é uma figura.
Realmente, tornou-se modismo dizer: “nada acontece por acaso.” Ô frase repetida. Para todos os males ela é receitada. Se o cachorro morreu, se o copo caiu ou se o casamento acabou, lá está ela explicando. Afinal, se nada acontece por acaso, então há destino? Os fatos tinham que acontecer assim? Os conceitos andam misturados e tem se falado demais o que cabe no de menos. Então vamos explicar melhor. Sim, não existe acaso. Mas a afirmação “nada acontece por acaso” tem sido usado com um significado distorcido, pois implicitamente está se dizendo que Deus quis e interveio para que aquilo acontecesse, independentemente de nossa ação ou omissão. É um erro. Será que Deus interfere sempre nos rumos de nossa vida? Será que existe destino? Será que cada fato de sua vida já está determinado, até arremessos de abacatada na parede alheia? Será que uma pessoa já nasce condenada a ser de um jeito? Cadê nosso livre-arbítrio? Cadê a responsabilidade por nossos atos e o valor do esforço, da dedicação, da preparação? Vamos explicar alguns aspectos.
Existem várias teorias que tentam explicar o assunto. Vamos conversar sobre as cinco principais. A casualidade; o livre-arbítrio absoluto; o fatalismo; o predestinacionismo e o determinismo. Os que defendem a casualidade, acreditam no poder do acaso, das coincidências, da força cega. Por isso, não acreditam em Deus e na lógica da vida e do universo. Os defensores do livre-arbítrio absoluto acreditam que podem tudo, que o homem é a medida de todas as coisas e o senhor autônomo de seu destino, independentemente de circunstâncias, contexto e condicionamentos. Nada deve cercear sua liberdade. O fatalismo defende que tudo está predeterminado, ou seja, acreditam no destino. Alguns já nascem para brilhar e outros para perder, sendo, de tabela, irrelevante o esforço para mudar o destino. Dentro da corrente fatalista, uma mais moderna chama atenção: são os fatalistas genéticos. Segundo eles, são os genes - nossa herança hereditária -, que definem quem somos, inclusive em relação a nossa personalidade e caráter. Segundo essa corrente filosófica, de muito pouco adianta tentar educar uma pessoa que tem herança genética para ser ignorante ou tentar reintegrar um criminoso que tem em sua herança genética a tendência delinqüente. Os predestinacionistas acreditam não apenas que uns são beneficiados com a sorte e outros com o azar. Separam a criação divina entre escolhidos e os anjos caídos. Os primeiros podem ser salvos, os segundo já nascem condenados ao inferno. Por fim, a mais sensata de todas e a abraçada pela doutrina espírita, é a teoria determinista, que – ao contrário do que se pensa – não prega o destino, mas a programação espiritual, que é resultado da lei de causa e efeito. O destino, no seu conceito clássico, atinge todos os fatos da vida. Tudo que acontece na vida estaria fixado inexoravelmente. A programação espiritual, diferentemente, restringe-se a alguns fatos. Os demais fatos são conseqüências de nossas ações e omissões. Além disso, a teoria determinista concilia-se com perspectivas psicológicas, filosóficas e históricas, pois não nega a influência do meio, do momento social, cultural, histórico e dos demais condicionamentos humanos. Por isso defende que o livre-arbítrio existe, mas não é absoluto, já que a atitude do homem pode sim ser decisiva quanto aos rumos de sua vida, mas não desconsidera os demais fatores que o influenciam no uso do livre-arbítrio. Os espíritos superiores ensinam (Questão 845, do Livro dos Espíritos) que “não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder.” Portanto, se um copo cai no chão não é errado você dizer: “nada acontece por acaso”, desde que você não esteja querendo insinuar que Deus deu um empurrãozinho na sua mão e foi o responsável pela queda do copo. Ele caiu porque você não o segurou como devia ou porque bateu sem querer nele ou por outros motivos que sogra nenhuma aceitaria... Como se vê não foi por acaso, a queda foi o efeito de uma causa, mas não foi Deus, foi você que o derrubou. Esse exemplo simples, serve para muitas outras tantas situações. O item 4, do capítulo V, do Evangelho Segundo o Espiritismo desmistifica o assunto: “De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou se preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida. Remontando-se à origem dos males, reconhecer-se-á que muitos são conseqüência natural do caráter e do proceder dos que os suportam. Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição! Quantos se arruinaram por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos! Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma! Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidades! Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excesso de todo gênero! (...) O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez de reconhecê-los, acha mais simples, menos humilhante para sua vaidade acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela, ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria.”
De tudo quanto foi dito, fica claro que o acaso realmente não existe, mas os acontecimentos de nossa vida são, em sua maioria, resultados diretos de nosso comportamento e da combinação de vários fatores. Deus age sim em nossas vidas e muito, mas não viola nosso livre-arbítrio e também não castiga, apenas permite que recebamos a colheita de acordo com o que plantamos. É isso.
Ainda hoje fico me perguntando. Será que a senhora ainda continuou servindo abacatada para os pretendentes da filha? Terá mudado para água-de-coco para evitar maiores estragos ou só cuidou de deixar a janela aberta em tais ocasiões? Uma coisa é certa, daria tudo pra ter visto a cara do meu colega quando viu a janela fechada.

5 comentários:

maria disse...

Estava lendo um artigo q rotularam de "O Novo Espiritismo" - q de novo nada tem ele era visto de forma distorcida-.
Fixei a atenção no q o Raul Teixeira afirmou\;"Quem se digladia c/outras religiões,mostra falta de maturidade na fé.Qdo vc. não crê o suficiente,quer convencer os outros p/convencer a simesmo." E o artigo conclui: Aépoca atual é tb de recrudescimento de fundamentalismo q sufocam a liberdade religiosa. Num tempo assim a acolhida da mensagem espírita, fundamentada na tolerância e solidariedade, é um fato a comemorar.
Parabens pelo seu bogls; "Visão espirita".

Amanda Longhi disse...

Denis, ao ler seus textos me senti na AGU, em uma daquelas várias conversas que tivemos sobre espiritismo, que, primeiramente, ouvia por curiosidade, mas depois isso foi mudando, pois passei a me interessar de verdade por sua visão espírita, a acreditar que não existe o acaso, que a morte é apenas uma passagem e que significa libertação do espírito, entre outros. Conversas estas, que repassei para meus próximos, dos quais consegui despertar o interesse, tal como aconteceu comigo.
Bjs

JORGE disse...

Apesar de muitos livros lidos, e algum tempo frequentando casas espiritas, confesso ainda tinha uma visão erronea quanto ao tema em tela. Muito bem explicativo. Adorei. Abraços. Blog Espinhos do Tempo.

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto, muito bom!

Flavia disse...

Espiritismo ciência marAvilhosa que nos conforta a alma