segunda-feira, agosto 14, 2006

Quem tem medo do Espiritismo?



“Existe uma coisa mais poderosa que todos os exércitos:
uma idéia cujo tempo é chegado.”
(Victor Hugo)


As pessoas temem o que não conhecem e o desconhecido tem o dom de criar monstros imaginários. Na adolescência, tornei-me mestre na arte de assustar as pessoas. Certa vez, estava como amigos em uma casa de praia, que tinha fama de “mal assombrada”. Era noite quando faltou água. Ainda faltavam duas pessoas tomar banho para sairmos. Enquanto esperávamos a água voltar, ficamos conversando sobre as supostas histórias da casa. Percebi que um dos amigos estava encolhido, tenso. Após várias rodadas de conversa, discretamente afastei-me do grupo de amigos e de longe avisei: a água chegou. O amigo tenso, não parecia nem um pouco disposto a tomar banho. Após alguma insistência ele subiu para o andar superior e entrou no banheiro sobressaltado e apressado. Todos estavam em baixo, inclusive eu. Só que os demais amigos estavam no andar de baixo, no pátio exatamente. Eu não, estava em baixo da cama, esperando a vítima (quanta inferioridade espiritual, hein!). Saiba que todo aquele que quer meter medo, também está com medo. Eu ali, embaixo da cama, sozinho, estava louco que o amigo saísse do banheiro o mais rápido possível. Após longos minutos a porta rangeu e preparei-me. Ele saiu lépido e – vejam só – sentou-se na cama justamente com os tornozelos bem na direção de minha mão. Agora pare um pouco e pense. Você está em uma casa que tem fama de “mal assombrada”, ouviu várias histórias que supostamente ocorreram ali. Subiu sozinho para tomar banho no andar de cima. Está apavorado, tenso e o silêncio é aterrador. Senta-se na cama, desesperado para acabar de se aprontar e descer. E de repente, do nada, sente seus tornozelos serem agarrados, após ouvir um uivo estranho (Confesso, eu pensava até nos detalhes. Ah, meu carma). Bom, dispensável dizer o final.
Na verdade, aprendi que meu papel nestes episódios era secundário. Apenas me aproveitava do medo que estava lá dentro daquela pessoa para conduzi-la e fazê-la acreditar nos monstros imaginários.
Ainda hoje isso acontece em relação ao Espiritismo, muitos críticos aproveitam o medo que as pessoas tem para criar monstros imaginários, que não existem e tornar a doutrina espírita uma “casa mal assombrada”.
Quando mamãe comentou para vovó que eu tinha me tornado espírita, vovó surpreendeu-se: Credo! Onde esse menino arranjou isso?! Quando anunciei aos meus amigos minha mudança, veio o gracejo: só se for “espírita de porco”. Epa, essa foi forte.
O comentário da vovó reflete uma realidade ainda presente. Muitas pessoas evitam conhecer o Espiritismo porque não querem enfrentar a tradição familiar, muitas vezes consolidada em outras religiões. São prisioneiras da tradição e muitas vezes se declaram fiéis de uma religião e não a praticam, mas não querem enfrentar a reação que há quando a tradição familiar é rompida.
Muitas pessoas têm medo do Espiritismo, mas a maioria tem mesmo muito pouca informação. O que a grande parte das pessoas sabe baseia-se em distorções e, por isso, tudo se confunde com o Espiritismo. Outras tantas se apavoram só de falar sobre espíritos. Na verdade, o Espiritismo é que ajuda-nos a não temê-los. O estudo nos liberta dos monstros criados pela ignorância.
Em verdade, todo medo se alimenta da ignorância.
Algumas pessoas preferem não saber para não pensar a respeito. Estas são as mais vulneráveis às mentiras contadas por aí. Ouvem e crêem sem um juízo racional, sem uma checagem, o que não é um fenômeno raro, pois muitas religiões ensinam a não questionar, a não perguntar, a não ir em busca das respostas – mesmo as mais cruciais à vida -, ensinam a crer sem maiores explicações. Na era da informação, já está ultrapassada a época da fé cega, cujo auge pode ser resumido na antiquada frase de Tertuliano: “credo quia absurdum.” (creio mesmo que absurdo).
Muitas pessoas acreditam – sem averiguarem se é verdade – que o Espiritismo está associado a coisas ruins, ao mal, fraudes, farsas, a superstições, ao diabo. Não está, basta verificar.
É comum que as pessoas confundam o Espiritismo com Macumba, Umbanda e Candomblé. São crenças diferentes. Quem ainda não pegou um panfleto de propaganda onde está escrito: Mãe “ tal tal tal”, advinha, joga cartas, tarô, lê mãos e traz de volta o amor perdido? Sabe onde ela atende? Segundo o panfleto: numa tenda “espírita”. Não estamos aqui julgando ou desrespeitando ninguém – todas as crenças que pregam o bem devem ser respeitadas e têm seu valor -, mas as pessoas têm o direito de saber que essas atividades não tem relação com o Espiritismo. No Espiritismo não se joga carta, tarô ou se lê mão.
Também se confunde Espiritismo com Espiritualismo. Este é o gênero cujo Espiritismo é uma de suas vertentes, mas com ele não se confunde, pois entre os espiritualistas existem milhares de crenças e práticas esotéricas que não são crenças e práticas espíritas.
Primeiro cabe esclarecer que o Espiritismo não é uma religião institucionalizada. No corpo de sua doutrina tem o aspecto religioso, ao lado do aspecto filosófico e científico. Os três aspectos formam o corpo doutrinário do que se conhece por Espiritismo.
Outra dúvida comum é saber se o espírita acredita em Deus? Sim, somos deístas, cremos em Deus e o Espiritismo nos ajuda muito a entendê-lo e a amá-lo. Aliás, a primeira pergunta do Livro dos Espíritos é: Que é Deus?
Noutro quadrante, há quem ache que não somos cristãos e sim kardecistas. Uma coisa não exclui a outra. Basta ler o “Evangelho Segundo o Espiritismo” e se verá que ele todo é baseado nas máximas cristãs. Todo! Jesus é o nosso referencial moral. Para quem não sabe, não há culto a Kardec no Espiritismo. Todos os espíritas respeitam muito Kardec pela missão que lhe coube e foi muitíssimo bem desempenhada, mas ele também tinha e tem Jesus por referencial. Ninguém vai ver uma imagem de Kardec sendo devotada ou as pessoas fazendo promessas à Alan Kardec. Jesus é nosso modelo moral e tudo o que ele ensinou é defendido pelo Espiritismo.
Alguns religiosos de outras crenças usam de um expediente bem conhecido e inadequado. Usam o medo e a ignorância das pessoas para criar uma imagem ruim da crença alheia e assim evitar que seus fiéis, por temor ou terror, deixem seus templos. Infelizmente, ainda vemos isso acontecer hoje.
Vítima de ferozes perseguições, imprecações e vitupérios, Alan Kardec, com seu ímpar equilíbrio respondeu aos detratores do Espiritismo, passagem constante de “Obras Póstumas”, in verbis: “(..) quanto mais procuraram denegri-lo ou ridicularizá-lo, tanto mais despertaram a curiosidade geral e, como todo exame só lhe pode ser proveitoso, o resultado foi que seus opositores se constituíram, sem o quererem, ardorosos propagandistas seus. Se as diatribes nenhum prejuízo lhe acarretaram, é que os que o estudaram em suas legítimas fontes o reconheceram muito diverso do que o tinham figurado. Nas lutas que precisou sustentar, os imparciais lhe testificaram a moderação; ele nunca usou de represálias com os seus adversários, nem respondeu com injúrias às injúrias.”
Ensina o espírito Joanna de Angelis, pela mediunidade de Divaldo Franco: “O teu ofensor merece tua compaixão, nunca o teu revide.”
Em entrevista concedida à Revista Época, edição n. 424, de 3 de julho de 2006, cuja matéria de capa é “O Novo Espiritismo.”, Raul Teixeira, um do maiores conferencistas do Movimento Espírita, explicita: “Somos avessos ao fundamentalismo. Daí ser tão importante o estudo e a leitura. Quem se digladia com outras religiões mostra falta de maturidade na fé. Quando você não crê o suficiente, quer convencer os outros para convencer a si mesmo.”
A questão n. 838, do Livro dos Espíritos, traz a lume o assunto: “Será respeitável toda e qualquer crença, ainda quando notoriamente falsa? Pergunta Kardec aos Espíritos Superiores. A resposta é impecável: “Toda crença é respeitável, quando sincera e conducente à prática do bem. Condenáveis são as crenças que conduzem ao mal.”
No clássico livro “O Consolador”, psicografado por Chico Xavier, o espírito Emmanuel assinala com percuciência: “A verdade é a essência espiritual da vida. Cada homem ou cada grupo de criaturas possui o seu quinhão de verdades relativas, com o qual se alimentam as almas nos vários planos evolutivos.”
O respeitado Edgard Armond, na sua obra “Religiões e Filosofias”, sintetiza bem o processo de revelação das verdades espirituais, pontuando: “É conhecido o fato, como já dissemos no princípio, de cada religião ou filosofia arrogar-se a qualidade de única verdadeira e detentora da Verdade total, tanto no que respeita a Deus e ao Cosmos, como à vida espiritual e à conduta social dos homens. Cada uma, entretanto, dessas doutrinas, dessa Verdade total unicamente recebeu a pequena parcela que sua própria condição evolutiva comportou. A Verdade total é inacessível a espíritos em graus inferiores de evolução e somente entidades de hierarquia elevada, já libertadas da vida física, não mais necessitadas de reencarnação, de resgate ou esclarecimento, são capacitadas para compreender e viver de maneira compatível com a posse de conhecimentos tão transcendentes.”
E conclui: “Por isso é que o espiritismo ensina que a revelação é parcial e progressiva e que ele mesmo, o espiritismo, é uma parte dessa revelação progressiva. (...) A Codificação, pois, representa uma segunda série de revelações que está sendo, a seu turno, superada, em certos detalhes, com a outorga de conhecimentos novos, mormente no que respeita aos planos invisíveis inferiores, e esse processo continuará, com revelações cada vez mais amplas e mais avançadas, sempre na medida do compatível com o grau de evolução da humanidade.”
Ora, quer isso dizer que cada religião tem o seu valor. Deus não depositou em uma, a Verdade Total. Dentre as Grandes Religiões, todas tem sua contribuição para dar. Quantas gerações se beneficiaram dos milenares Budismo, Hinduísmo, Taoísmo, Islamismo? Que bela história a do Judaísmo e do povo Judeu. Quantos santos, mártires e geniais pensadores a Igreja Católica produziu? Quantas pessoas foram e são beneficiadas pelos Evangélicos? Como desconsiderar tantos espíritos luminares e missionários que inauguraram as Grandes Tradições? Acaso não existe apenas um só Deus?
Dalai-Lama – o carismático líder espiritual do Budismo Tibetano - ensina que religião é como remédio, um remédio não serve para todas as doenças. Léon Denis em sua lapidar obra “Depois da Morte” assinala que a despeito das diferenças exteriores, de forma e ritos, existe uma linha mestra que entrecorta as grandes religiões: a devoção à Deus, o auto-melhoramento e o amor ao próximo.
No mundo já tão maltratado por guerras e conflitos religiosos, convém cultivarmos a tolerância e o respeito mútuo. Menos mal quando o desrespeito limita-se a troca de adjetivos descorteses, quando se vê a todo dia diferenças de crenças se resolverem com homens-bomba. Ninguém se arvore a salvador de almas, denegrindo e achincalhando a crença alheia. Aliás, a maioria dos fiéis presta inusitada lição aos líderes religiosos, posto que fora dos templos, transcendem as diferenças e convivem muito bem com pessoas de outras crenças religiosas.
Em entrevista publicada no Reformador de maio de 2006, o festejado pesquisador espírita Jorge Andréa, ensina: “O Espiritismo será o responsável pela queda dos rótulos religiosos. Não agora, mas no preparo para tal, pois os rótulos religiosos desaparecerão e haverá uma única religião no futuro, a da fraternidade.”
Leonardo Boff, respeitado teólogo, certo dia indagou ao Dalai-Lama qual seria a melhor religião? O líder espiritual do Budismo ensinou com ímpar sabedoria: “a melhor religião é a que te faz melhor.” Perfeito.
Nisto que cremos, que a religião é um caminho e não o fim. Ela deve conduzir os espíritos à Deus, ofertando-lhes ferramentas de auto-conhecimento e aperfeiçoamento. Se você encontra isso no Catolicismo, lá é seu lugar. Se o templo Evangélico eleva teu espírito, por que mudar de religião? Se o budismo te sublima os pensamentos e sentimentos, excelente, pratique-o.
Quando partirmos dessa vida, não encontraremos uma fila para católicos, outra para ateus ou outra para espíritas. Encontraremos o que tivermos plantado com nossas ações, seremos mais ou menos felizes conforme o que tivermos feito de nós mesmos, independentemente de nosso escudo religioso.
Até lá espero que as vítimas de meus sustos adolescentes tenham me perdoado. Talvez meus amigos tenham parcial razão, por algum tempo fui apenas um “espírita de porco.”

5 comentários:

Regida por Vênus disse...

Nossa Denis,
Como vc está se aprofundando hein?!
Os textos estão show!
Indiquei teu blog num dos meus textos...ainda não consegui incluir os links...mas as fotinhas estão superadas! :)
Saudades de nossos papos espíritas e dos papos espirituosos também.
Força sempre!

Rose disse...

Meu amigo Denis,
Adorei o texto. Já havia visitado teu blog e nem percebi que era teu, que pateta não? Mas, como conversamos há pouco, o medo ( nosso e dos outros)é o principal obstáculo que nós, os espíritas, temos que enfrentar para viver em plenitude aquilo em que acreditamos.Bjs, continue escrevendo, quem sabe num futuro bem próximo estarei criando uma capa para o teu primeiro livro, que deve ter o título "Onde se acende a luz da alma?"

Monica disse...

Excelente texto.Referenciarei àqueles que tem mitos e medos com relação ao espiritismo.E muitos resisem em conhecer...eles e seus obcessores.

Unknown disse...

Gente,como é a dinâmica de um centro espírita?Sou apaixonado pela doutrina espírita,gostaria de me aprofundar mais no conhecimento da mesma,sei que a vida não termina com a morte,sei que há um plano muito maior por trás da vida.
Tenho alguns medos pois há muitos mitos sobre espiritismo que plantam na nossa mente desde criança.Obrigado.

Denis Gleyce disse...

Caro leitor, a dinâmica muda um pouco entre centro espíritas. Mas basicamente ofertam oportunidades de estudo, esclarecimento, tratamentos espirituais e atividades relacionadas à prática da caridade.
Não tenha medo.
Fala-se muita bobagem sobre o Espiritismo.
Procure um centro espírita sério e tire você mesmo suas conclusões.
Fraternal abraço.
Denis Moreira