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domingo, maio 13, 2007

MÃES ABANDONADAS




“Temei conservar-vos indiferentes, quando puderdes ser úteis.”

(Miguel, Bordéus, 1862 – O Evangelho Segundo o Espiritismo)




Urgem estrondosamente as trombetas sociais, quando uma mãe – por desespero ou despreparo qualquer – renuncia à sua missão mater, abandonando sua prole, sem os devidos cuidados, às agruras do mundo.
Mas há, nos porões do palco social, um drama surdo que se mascara no jogo das aparências, tão praticado nas relações em sociedade. É o drama das mães abandonadas.
Assunto evitado habilmente, porque cada vez incomoda mais gente.
Mães abandonadas sempre foram um adorno triste a definhar silenciosa e discretamente nos depósitos socais, que chamamos de asilos.
Esta realidade mudou e para pior.
O abandono transpôs os muros destas instituições de isolamento e invadiu as cidades.
Mães abandonadas há por todo lugar.
O mito da velhinha pobre, doente e solitária, sentada em uma cadeira de balanço, aguardando seu fim, já está ultrapassado.
A sociedade moderna sofisticou o abandono e o democratizou, socializando-o entre pobres e ricos, entre cultos e ignorantes, alargando a triste massa de mães que perderam seus filhos, ainda vivos.
O abandono perdeu suas características clássicas para se mal disfarçar em pequenos atos de desrespeito, desprestígio, indiferença e maldade, que alfinetam, queimam, esmagam a coração maternal e se apresentam de mil formas: no fim das bênçãos; na desatenção à fala da mãe; na ausência prolongada; na falta de afago, carinho, afeto; na timidez das declarações de amor; na crítica ácida e desrespeitosa; na exclusão dos programas sociais; na ignorância dos problemas do cotidiano; na fuga ao diálogo; nas sucessivas mentiras e farsas; nas decepções pessoais; na deslealdade e traição filial; na mingua à assistência financeira e material; na insensibilidade a seus dramas e reclamos; na falta de momentos simples, de surpresas, passeios, agrados, elogios; no vício de ser servido, quando lhe cabia servir; no egoísmo de colocar sempre seus interesses como prioritários em sacrifício dos maternos; no desejo inconfessável de se livrar da mãe, entre tantas formas de descumprir o quarto mandamento divino “honrai pai e mãe”.
Três fatores confluem para o agravamento significativo desta epidemia moral:
a) Mulheres vivem mais que os homens e, portanto, tendem a chegar na velhice sozinhas;
b) A desintegração da família;
c) A independência precoce e egoísta dos filhos;
O primeiro fator é antigo e, na era moderna, tende a arrefecer sua força, haja vista a entrada das mulheres no mercado de trabalho e, de tabela, sua vulnerabilidade às mesmas pressões e problemas que os homens sofrem.
Os dois últimos são fatores modernos, sendo que o segundo – o mais grave - talvez perca força na medida que outras formas de relacionamento se consolidarem e permitirem, sem maiores preconceitos, que um novo núcleo familiar seja redefinido saudavelmente.
Vejo, contudo, o terceiro fator como o mais crescente e diretamente associado ao segundo.
Cada vez mais cedo, os filhos buscam liberdades e independência. Sem saber ao certo o que significam, lançam-se açodados nas mais diversas experiências e se deixam tragar pelo turbilhão da vida moderna.
De repente, não têm mais tempo e interesse em suas mães.
De uma hora para outra, a mãe – muitas vezes já abandonada por outros filhos, pelo pai, pela sociedade e pela saúde – vê-se destituída de seu mundo, abandonada à própria sorte, condenada ao isolamento, à solidão, a um cotidiano chato, monótono, serviçal, de profunda tristeza e constrangedor acabrunhamento.
Obviamente, que filhos precisam voar com próprias asas, muitas vezes vôos altos e distantes. Mas precisam abandonar o ser que lhes agasalhou nas entranhas, lhes aqueceu em noites de insônia e enfrentou o mundo para protegê-lo dos perigos reais e imaginários, dos visíveis e ou não, e tudo isso para que pudessem, os filhos, construírem sua própria história?
O que se vê hoje é um jogo bem orquestrado de simulacros mal engendrados, cujo ato máximo de representação simbólica são esses presentes ofertados em datas comerciais – dia das mães, natal, etc -, que mais servem como catarse para aliviar a culpa psicológica, do que para prestar sincera e justa homenagem ao ser angelical que - mesmo revestido de falhas e defeitos humanos – cumpriu a missão de nos moldar, em muitos aspectos, tal como somos.
Lamentavelmente, a grande maioria dos filhos sequer se reconhece na condição de ingrato. Não conseguem perceber a distância que os separam. Crêem, equivocadamente, que sua atenção, carinho, assistência, respeito e amor são suficientes, quando não equivalentes ao que receberam da mãe.
De regra, não são.
Estão, em verdade, a provocar mais cedo ou mais tarde – pela lei de causa e efeito - a adequada retribuição do universo a seu comportamento, que poderá se manifestar na velhice do porvir ou noutra reencarnação, quem sabe de orfandade, mas que por certo já provocará seus primeiros dons curativos pela dor da perda, enquanto convite para valorização do que se tinha e não se aproveitou.
Na questão 385, do Livro dos Espíritos, os Espíritos Superiores afirmam que o amor maternal é “o maior amor que um ser possa votar a outro”.
Ainda assim, estamos abandonando nossas mães.
Que mundo é este que queremos construir?

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